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As horas

A cada nova conversa que tenho com os meus outros pedaços, percebo o quanto deles fica impregnado em mim; e o quanto de mim neles. Isso confirma como a interação das partes é indispensável para o todo.

Acontece que eu não mais posso evitar. O sumo forte do limão espremido acentua no meu paladar. Esse novo sentido de sentir as coisas, envolve-me completamente. Impiedosamente. Minha cabeça tem passado por um emaranhado de não sei o que, horrendo.

E então as palavras de alguém que está muito além de querer, inundam o meu ser, fazendo-me transbordar na vastidão (in)finita do (in)finito.

“Fico feliz pelas suas mudanças, ainda que não saiba quais são elas. Do meu ponto de vista, aqui, de longe, é ainda mais difícil saber, e eu também sofro. Espero que isso te leve a um, digamos, lugar melhor do tempo. Já reparou em como o céu, antes de uma tempestade, parece um emaranhado horrendo também? E é por isso mesmo que é tão bonito (ao menos para mim); é claro que é assustador, doloroso até, mas é lindo. Não é nada mesquinho, e acredito que isso e o que você sente tem algumas semelhanças. A vida às vezes é desanimadora, mas eu ainda acredito que quem a sofre integralmente é quem vive de verdade. Não vou ser hipócrita e dizer que por isso tudo vale a pena, e que basta para sermos felizes; talvez ela não seja o milagre que todos nós imaginamos (“a vida não é o sumo bem”. Schiller, em A noiva de Messina), mas ainda assim tem seus próprios pequenos milagres.”

Enquanto degustava o sabor de cada palavra, algo desconhecido fazia-se dono de mim. Em resposta disse que talvez seria por isso que nos dias em que o céu anuncia uma tempestade, eu me deleite tanto, simplesmente em parar e olhar… e olhar… Talvez, inconscientemente, eu me reflita nele. Eu achei linda e muito coerente essa comparação. Só poderia vir de alguém, como costumo dizer, dono [?] de um coração nobre e uma alma elevada.

E então todos esses fragmentos que preenchem o nosso compartimento interno; que nem na tentativa de reconstitui-los [des]escrevendo-os é possível, fez com que eu lembrasse de algumas palavras lidas, já há algum tempo, de Castelo Camilo Branco. O que ele dizia, naqueles escritos, é tudo o que eu gostaria de hoje fazer: afogar as horas, e afogar talvez a necessidade de vender o meu tempo. Deste modo, não mais veria as horas passar, nem daria o leve prazer de verem-me descansar.

E então poderia dar-me o direito de, demoradamente, espreguiçar. De, simplesmente, parar e apreciar o que me envolve, sem a preocupação do tempo corrido sem sentido. E poderia, ainda, ter o prazer de deleitar-me com as lembraças passadas, despreocupada com o importuno tic-tac. E então, dedicaria isso que chamam de horas àquilo que me completa; que me auxilia na compreensão do que sou e tenho sido, e daquilo que me rodeia diretamente ou não: a lingüagem poética. E poderia ser, finalmente, plena de mim.

 

Pegue...

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