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Posts Tagged ‘Sensações’

E no ônibus, a caminho da felicidade, lembrava-se de tudo que havia passado nos últimos anos, e conseguia visualizar claramente, como se uma tela fosse pintada bem a sua frente, da importância de cada lamentável acontecimento da sua vida passada. E via que cada um era indispensável para a construção, mesmo que inacabada, da pessoa que é hoje, e para o aprimoramento de suas percepções.

Lembrava-se, com uma doce saudade, das amarguras. Das dificuldades financeiras – a que vivia no momento era diferente da de outrora. Sentia-se injusta considerar aquilo como dificuldade. E sim, lembrava-se também dos amores passados. Dos pastados. Dos malfalados. Dos abafados. Dos abandonados. Dos inacabados. Dos mal-acabados. De todos.

E à tona, o passado despencou sobre si. Impiedosamente, suas lembraças empoeiradas, uma a uma, eram retiradas daquele fundo negro que é o baú da memória. Ela varria para a superfície tudo que estava escondido debaixo do presente. Depois resolveu passar uma paninho umidecido de alfazema, para evitar uma possível alergia vinda daquela nuvem flutuante da memória varrida.

Ria, sozinha, de como as coisas tinham sido. Ria porque envergonhava-se de chorar no ambiente público em que se encontrava. Todos aqueles renascimentos, que na verdade nem mortos estavam, porém ela imaginava que sim, a emocionavam profundamente. Era como se uma faca muito aquecida, vagarosamente, fosse rodada em seu peito. E sua boca estivesse tapada, amordaçada, impedindo-a de liberar aquele heróico grito de expurgação.

Não seria falso dizer que uma súbita vontade de rir também apoderava-se dela. Era como se risse da e na cara de todas as sinceras bobagens de antes. E como se ria dela mesma. Na verdade era isso. Um riso de escárnio, antecedido pelo sorriso de desterrar aquilo que estava enterrado [?].

Lembrou-se de alguém em especial. Daquele que tivera a proeza de unir num só relacionamento todos os adjetivos citados anteriormente: um amor passado, pastado, malfalado, abafado, abandonado, mal-acabado e inacabado. Certamente deveria haver muito mais entre essas vírgulas. Apesar de toda beleza que fora aquele amor – que sim, tinha sido amor, de ambas as partes-, e do bem em que se encontrava no presente, sem aquela infortuna preocupação de saber até quando, pensar nele gelava-lhe a boca do estômago, e a sensação de outro grito calado vinha.

Finalmente, vencera os 15 minutos que levava de sua casa à da felicidade. Por bem pouco aqueles devaneios não a fazem ir em frente. Mas seguiria para onde nesse caso batido? Infelizmente, não poderei responder a vocês, meus queridos, posto que nem mesmo ela sabia. Eu tentei, e tento, mas vocês sabem que quando  a turvação da vista é transitória ou definitivaa nuvem causa isso -, fica difícil até mesmo para mim descobrir o que há nos cantos mais acantoados e encantados.

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

– Oi, amor.

 

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Sem início nem fim

Eu tenho pensado mais que o normal
Neste espiral
Que é a vida.

Esse tufão de pensamento
Que enrolado pelo vento
Desencadeia o furacão de um tormento.
O tijolo que sobre o cimento
Dá embasamento para suportar
A dor do momento
E o ardor do sofrimento
Já não mais agüenta.

E esse intenso rodopiar
Que se ousá-la de cima espiar
Mais parece um rede-moínho forte a girar.

E ela não pára!
Apressada roda, roda, roda
Manda uma nota
Para eleger a rota
Do poder que me sabota.
E essa frota
Tenta com cota
O meu filho proteger.

E o silêncio ranca no dente
Toda a semente
Dessa mente (in)decente
Poluída pelo falso prazer.

Que circular infindável
Essa labuta do viver.

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O caminho

(…) algo mais forte toca as minhas mãos na tentativa de sugar-me para as profundezas da razão.
A razão, em sua profundidade, é negra, invísivel, impossível, portanto, de ser tocada, mas aquilo tenta e eu permito a aproximação. Ela me transporta para a vastidão silenciosa e vaga do pensar, que me confunde mais e mais.

O que deveria ir, volta; o que deveria subir, desce; é tudo ao contrário. Ou seria eu oposta a tudo, pensando que o problema está naquilo que não seja eu, quando, na verdade, sou eu própria? Caminho pela escuridão que impede o meu toque nas coisas. Então, desnorteada, procuro, procuro, procuro… mas o quê?

Coisas que na verdade são sem existirem; existem sem ser. Coisas que apenas são quando sentidas, vividas, pensadas, mesmo que incompreendidas. Afinal, compreender que nem tudo pode ser entendido como a exatidão matemática, já é um ótimo passo a caminho da compreensão do incompreendido. Pena que enquanto isso o dissabor concentra-se mais forte no paladar. Pena [?].

Texto: Gauche

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Pregar

Pregadores - Por Nathalie Gingold

Suponho que captar momentos como esse seja questão de nobre comoção.

Daquelas capazes de desgarrarem-se da pequenez corpórea, e bem fundo, conferir se abaixo da superficialidade, a luz daquilo que, a priori, insignificante era, atingisse. E de lá, contemplá-la veementemente, como forma de reconstitui-la. Como se essa reconstrução fosse uma maneira de reviver aqueles momentos que, de certa forma, estavam todos inacabados, e assim colocar [quem sabe], de uma vez por todas, um ponto final. E desse modo, dar conta do passado. Despreender-se do futuro. E adorar a simplicidade do presente. Tornando-o em sangue dos dias transparentes.

Texto: Gauche

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