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Posts Tagged ‘Sensação’

Em 13 de junho de 1.888, nasce Fernando Antônio Nogueira Pessoa, personalidade futura de extrema importância, não apenas para a Literatura Portuguesa, mas para o panorama da Literatura mundial. Seu brilhantismo deve-se, certamente, pela magnífica forma que encontrou de exteriorizar suas sensações interiores dando início à criação ortônica e heterônima, forma esta que resulta em personalidades plurais por meio de uma personalidade singular que é Fernando Pessoa.

Ao criar seus heterônimos, Pessoa atribui a eles biografias específicas que justificam a personalidade de cada um, o que possibilita, durante a leitura, uma visibilidade mais clara de seus outros eus.

“Como o panteísta se sente árvore e até a flor eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de não eus intelectualizados num eu postiço”.

Designado por muitos como o poeta dos vários eus, a criação dos heterônimos seria pela necessidade de captar os vários modos de percepção da realidade. Eis que em 15 de outubro de 1.890, na cidade de Tavira, situada no extremo sul de Portugal, nasce o último de seus heterônimos, Álvaro de Campos, quem, segundo o próprio Pessoa, é caracterizado como o poeta “histéricamente histérico”.

A maneira como Fernando Pessoa conseguiu dar vasão aos seus diferentes eus, já que afirma sentir viver vidas alheias nele próprio, como se participasse da existência de toda a humanidade, de acordo com as diversas realidades, e especialmente a aliança que fez ele entre o mundo moderno e a maneira de enxergar esse mundo moderno faz de Álvaro de Campos uma personalidade singular.

Formado em engenharia naval por uma universidade da Escócia, Álvaro de Campos vive em Lisboa em inatividade devido não à falta de trabalho, mas por razões muito mais complexas. Extremamente influenciado pelas vanguardas futuristas e pelos momentos históricos e sociais da época, Campos canta a modernidade, a era tecnológica, mas não deixa de apresentar sua preocupação com a existência humana diante da crescente modernização pela qual passava o mundo e que dava origem, muitas vezes, a personalidades insensíveis e cruéis. Essa é uma das características primordiais de Campos que faz com que sua poética seja transcendental dando imortalidade à obra do poeta sensacionista.

Nascido no auge da era da Revolução Industrial, Campos tem uma forte influência de Marinetti, poeta italiano que introduziu o futurismo, e também do poeta americano Walter Whitman, também com tendências futuristas.

“A literatura é linguagem elevada ao grau máximo de significação”, segundo o teórico Ezra Pound – é uma manifestação artística que tem a intenção de despertar o olhar consciente de seus leitores; não apenas para a sua realidade própria, mas também para a realidade que envolve toda a humanidade. A arte é o único meio capaz de realizar a desautomatização necessária e atribuir ao sujeito uma maneira diferente e útil de sentir. Uma espécie de revolução interior que tem a necessidade de revelar-se.

A poesia lírica, um dos gêneros literários, de acordo com Octávio Paz, tem esse poder duplicado, pois consegue, por meio da linguagem, dizer o que ela própria seria incapaz de dizer: o indizível. Pelo trabalho extremamente elaborado do poeta, o poema, que em sua completude, forma uma imagem cuja qual chamamos de poética, é capaz de recriar e reconstruir idéias e assim atingir o inatingível.

Como afirma Chklovski em sua “A Arte como Procedimento”, podemos definir esse procedimento como “A arte é pensar por imagens” ou mesmo “Sem imagens, não há arte”, teoria essa que defende a explicação do desconhecido pelo conhecido, ou seja, a visualização de uma imagem nos remeterá a uma certa “compreensão” de algo. Ou também, podemos defini-lo como “artes líricas que se dirigem imediatamente às emoções”.

Sem desconsiderar os dois tipos de procedimentos citados acima, Chklovski chega a um resultado, digamos, mais completo, já que os outros apresentam falhas por definições tão genéricas, e então define que “A arte é antes de tudo criadora de símbolos”, ou relembrando que os símbolos utilizados pela arte já foram criados ao longo do percurso da existência humana, são por ela – a arte – (re)criados.

Dono de uma sensibilidade indiscutível e um olhar conscientemente crítico, o poeta-engenheiro dá prioridade à temática crítica sobre a modernidade e suas conseqüências. Campos não se encontra no mundo apenas fisicamente, ele é membro ativo, se não por meio de atos, por meio de pensamentos e reflexões em relação às diversas experiências que o rodeiam, e com isso levanta inúmeros questionamentos sobre a condição humana e sobre o rumo desta humanidade.

A frase que melhor o define é: “Sentir tudo de todas as maneiras”

Uma das principais referências a Campos é a sensação. Totalmente voltado à compreensão do mundo moderno, com uma maneira sensível e nobre de encarar a realidade que o envolve dando à sensação um valor absolutamente real.

A construção poética de Campos, feita de maneira intencional, pretende despertar visões que vão além da habitual. Atribui a atos e formas, que para a maioria são percebidos como prosaicos, isto é, sem a importância devida que conseqüentemente passam por despecebidos, percepções poéticas por meio de sensações e raciocínios particulares. O eu poético dá a oportunidade ao leitor de aproximá-lo à obra, levando-o à reflexão do que ele é e tem sido.

“A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.”

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