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Posts Tagged ‘Mulher’

Surto

Sentada na cama sobre as pernas cruzadas que já apresentavam indícios de dormência pelo excessivo tempo naquela mesma posição, lia pela sengunda, talvez terceira, aquele mesmo livro. E a cada leitura, a impressão que a dominava, era de que um penhasco abria-se diante de seus pés, e então contemplava a descoberta daquele novo mundo.

‘A sensação das mãos molhadas, incapazes de reter a água. Era a mesma que sentia quando as palavras iam surgindo de dentro, formando as frases que tinham cadência e refletiam apenas o balanço do pensamento que divagava, como se andasse pelo corpo todo e apanhasse, em cada ponto, o ritmo próprio que a animava.’

Era isso.

Sorvera outra taça de vinho. Daquele modo. Naquela sucessividade, acabaria por embriagar-se, mas o sabor amargo daquele sumo de uvas, agradava-lhe tanto. Gostava de empoça-lo na boca, a fim de saborear ao máximo aquela colheita. Imaginava que mergulhar nas profundezas daquele abismo poderia ser intenso como era o torpe que aquele lento virar proporcionava-lhe. E fitava ora o nada ora o teto enquanto deliciava-se com aquele efervecer de sensações causados também pelo tinto. No momento daquele segregar, apetecia-lhe laçar todas as miragens que insistiam em seduzi-la para o mergulho naquele precipício. Não devia ser de todo ruim, porém sabia que poderia não mais retornar das cinzas da delícia e do prazer que é o lar do ‘faz-de-conta’. Perguntava-se, com rugas na testa, por que não cumprir as ordens do desejo, e assim trouxe o passado a eternizá-lo. E num ímpeto deslizar, imergia tão além, que nem pôde regressar. E sorriu.

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Tentativa de haicai

os traços
riscados pelo tempo
contemplo

Seria possivel, no impeto da excessiva contemplação, cegarmos?

Seria possível, no ímpeto da excessiva contemplação, cegarmos?

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O sol bate no mozaico – Parte ll

E sua vida voltava ao normal. Aquela sensação que tanto a atordoava, somente ao imaginar a futura despedida, concretizava-se. Cada incompreensível angústia que sentia, agora clareava-se, enfim. Sim, aquele sentimento era uma espécie de presságio. Uma antecipação de seu inconsciente, que a presenteava com o que estaria por vir.

Embora quisesse parecer indiferente a tudo que, loucamente, alvoroçava suas sensações, sabia do ocorrido no seu lado avesso. Tentava desmentir, para si mesma, a impressão de que ele também adivinhara. E assim, permaneceu todos e cada minutos. É bom ressaltar que a intenção de indiferença era simplesmente para demonstrar que o bom senso ensinara-lhe a ser racional quando deveria ser. Não gostaria de demonstrar a menina romântica que, provavelmente, era.

Por isso tentou, até o último instante, aparentar alegria e satisfação – o que não era mentira -, porém sabia que não era apenas isso. Esses sentimentos vinham acompanhados de mais; de um intenso e até ridículo desejo de agarrar as horas e prendê-las, bem forte, na palma das mãos e, com este gesto, possibilitar que o momento permanecesse retido. Imóvel. Eterno. E então eles poderiam bailar, despreocupados, ao som daquela deliciosa canção que soava de ambos os peitos.

Sonata que a deixava parada. Em perplexa contemplação diante daquela face que o tempo fizera o favor de apurar tanto, e tão bem. E perdia-se no desejo de seu importuno desejo. E dizia-se não. Mas era sim.

E a cada ‘enjanbement’ daquelas notas musicais, que aquele moderno aparelho trazia em si; a cada respiração impausável; a cada deslizar de peles; a cada silencioso olhar que continham todas as palavras do universo. Tudo. Tudo era um tormento naquela manhã seguinte, que insistia fazer daquele passado o presente.

Andava sonâmbula pelas ruas movimentadas. Nada via nem ouvia. Encontrava-se embevecida pelas miragens alucinógenas daquele dia que, mesmo sem querer, sua lembrança, como já foi dito, insistia em trazê-las. E aquele presente fazia-se daquele passado, que mal acabara.

E aquela fala. Aquela moto. Aquele vento cortante. Aquela rua. Aquele primeiro beijo. Aquele jantar. Aquele vinho. Aqueles olhos. Aquelas mãos. Aquela pele. Aquele cheiro. Aquele cair de águas. Aquele recitar de versos lusitanos. Aquele espriguiçar. Aquele porte sério que escondia um humor ora ácido ora ingênuo; ambos frescos e genuínos. Aquela companhia. Aquela noite que estendera-se até a próxima. E que algum dia voltará.

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Fênix

… hoje estou fogueira: queimando por dentro, soltando fagulhas e deixando só as cinzas pelo caminho.

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Ao Amor

Amo-te, Amor
Porque em mim está
Todo horror e sabor
De se ser como um mar

De ser fluida e deslizar sobre a mente
Minha, tua, de toda há gente
De todo há mar

De ser regada por um ar
Sempre úmido e cheiroso
Que cala todo e qualquer calar

De ser calma posto à costa
E banhar de freira a par
De ser rasa sobre a tua encosta
E profunda além da beira-mar

De ser solúvel posto sal grosso
E aos olhos dos que crêem
Estar sem ferida, ardida ser

De ser ressaca junto a cada gente
Que tranqüila finge brindar a vida
Sempre entorpecida

E então tragar o sóbrio
Feito águardente,
E regressar!
Seu inconseqüente semear

De ser incolor, sem sabor
E sem odor… aparentemente sem graça
Como os com rancor

E ser potável e salobra
calma, depois louca
E vagar…

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E no ônibus, a caminho da felicidade, lembrava-se de tudo que havia passado nos últimos anos, e conseguia visualizar claramente, como se uma tela fosse pintada bem a sua frente, da importância de cada lamentável acontecimento da sua vida passada. E via que cada um era indispensável para a construção, mesmo que inacabada, da pessoa que é hoje, e para o aprimoramento de suas percepções.

Lembrava-se, com uma doce saudade, das amarguras. Das dificuldades financeiras – a que vivia no momento era diferente da de outrora. Sentia-se injusta considerar aquilo como dificuldade. E sim, lembrava-se também dos amores passados. Dos pastados. Dos malfalados. Dos abafados. Dos abandonados. Dos inacabados. Dos mal-acabados. De todos.

E à tona, o passado despencou sobre si. Impiedosamente, suas lembraças empoeiradas, uma a uma, eram retiradas daquele fundo negro que é o baú da memória. Ela varria para a superfície tudo que estava escondido debaixo do presente. Depois resolveu passar uma paninho umidecido de alfazema, para evitar uma possível alergia vinda daquela nuvem flutuante da memória varrida.

Ria, sozinha, de como as coisas tinham sido. Ria porque envergonhava-se de chorar no ambiente público em que se encontrava. Todos aqueles renascimentos, que na verdade nem mortos estavam, porém ela imaginava que sim, a emocionavam profundamente. Era como se uma faca muito aquecida, vagarosamente, fosse rodada em seu peito. E sua boca estivesse tapada, amordaçada, impedindo-a de liberar aquele heróico grito de expurgação.

Não seria falso dizer que uma súbita vontade de rir também apoderava-se dela. Era como se risse da e na cara de todas as sinceras bobagens de antes. E como se ria dela mesma. Na verdade era isso. Um riso de escárnio, antecedido pelo sorriso de desterrar aquilo que estava enterrado [?].

Lembrou-se de alguém em especial. Daquele que tivera a proeza de unir num só relacionamento todos os adjetivos citados anteriormente: um amor passado, pastado, malfalado, abafado, abandonado, mal-acabado e inacabado. Certamente deveria haver muito mais entre essas vírgulas. Apesar de toda beleza que fora aquele amor – que sim, tinha sido amor, de ambas as partes-, e do bem em que se encontrava no presente, sem aquela infortuna preocupação de saber até quando, pensar nele gelava-lhe a boca do estômago, e a sensação de outro grito calado vinha.

Finalmente, vencera os 15 minutos que levava de sua casa à da felicidade. Por bem pouco aqueles devaneios não a fazem ir em frente. Mas seguiria para onde nesse caso batido? Infelizmente, não poderei responder a vocês, meus queridos, posto que nem mesmo ela sabia. Eu tentei, e tento, mas vocês sabem que quando  a turvação da vista é transitória ou definitivaa nuvem causa isso -, fica difícil até mesmo para mim descobrir o que há nos cantos mais acantoados e encantados.

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

– Oi, amor.

 

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A cozinha da bruxa

Os instrumentos são outros...

 

os caldeirões diferentes...

 

e até mesmo o olhar mudou...

 

mas as flores não.

mas as flores não.

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