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Posts Tagged ‘Contos’

O sol bate no mozaico – Parte ll

E sua vida voltava ao normal. Aquela sensação que tanto a atordoava, somente ao imaginar a futura despedida, concretizava-se. Cada incompreensível angústia que sentia, agora clareava-se, enfim. Sim, aquele sentimento era uma espécie de presságio. Uma antecipação de seu inconsciente, que a presenteava com o que estaria por vir.

Embora quisesse parecer indiferente a tudo que, loucamente, alvoroçava suas sensações, sabia do ocorrido no seu lado avesso. Tentava desmentir, para si mesma, a impressão de que ele também adivinhara. E assim, permaneceu todos e cada minutos. É bom ressaltar que a intenção de indiferença era simplesmente para demonstrar que o bom senso ensinara-lhe a ser racional quando deveria ser. Não gostaria de demonstrar a menina romântica que, provavelmente, era.

Por isso tentou, até o último instante, aparentar alegria e satisfação – o que não era mentira -, porém sabia que não era apenas isso. Esses sentimentos vinham acompanhados de mais; de um intenso e até ridículo desejo de agarrar as horas e prendê-las, bem forte, na palma das mãos e, com este gesto, possibilitar que o momento permanecesse retido. Imóvel. Eterno. E então eles poderiam bailar, despreocupados, ao som daquela deliciosa canção que soava de ambos os peitos.

Sonata que a deixava parada. Em perplexa contemplação diante daquela face que o tempo fizera o favor de apurar tanto, e tão bem. E perdia-se no desejo de seu importuno desejo. E dizia-se não. Mas era sim.

E a cada ‘enjanbement’ daquelas notas musicais, que aquele moderno aparelho trazia em si; a cada respiração impausável; a cada deslizar de peles; a cada silencioso olhar que continham todas as palavras do universo. Tudo. Tudo era um tormento naquela manhã seguinte, que insistia fazer daquele passado o presente.

Andava sonâmbula pelas ruas movimentadas. Nada via nem ouvia. Encontrava-se embevecida pelas miragens alucinógenas daquele dia que, mesmo sem querer, sua lembrança, como já foi dito, insistia em trazê-las. E aquele presente fazia-se daquele passado, que mal acabara.

E aquela fala. Aquela moto. Aquele vento cortante. Aquela rua. Aquele primeiro beijo. Aquele jantar. Aquele vinho. Aqueles olhos. Aquelas mãos. Aquela pele. Aquele cheiro. Aquele cair de águas. Aquele recitar de versos lusitanos. Aquele espriguiçar. Aquele porte sério que escondia um humor ora ácido ora ingênuo; ambos frescos e genuínos. Aquela companhia. Aquela noite que estendera-se até a próxima. E que algum dia voltará.

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E no ônibus, a caminho da felicidade, lembrava-se de tudo que havia passado nos últimos anos, e conseguia visualizar claramente, como se uma tela fosse pintada bem a sua frente, da importância de cada lamentável acontecimento da sua vida passada. E via que cada um era indispensável para a construção, mesmo que inacabada, da pessoa que é hoje, e para o aprimoramento de suas percepções.

Lembrava-se, com uma doce saudade, das amarguras. Das dificuldades financeiras – a que vivia no momento era diferente da de outrora. Sentia-se injusta considerar aquilo como dificuldade. E sim, lembrava-se também dos amores passados. Dos pastados. Dos malfalados. Dos abafados. Dos abandonados. Dos inacabados. Dos mal-acabados. De todos.

E à tona, o passado despencou sobre si. Impiedosamente, suas lembraças empoeiradas, uma a uma, eram retiradas daquele fundo negro que é o baú da memória. Ela varria para a superfície tudo que estava escondido debaixo do presente. Depois resolveu passar uma paninho umidecido de alfazema, para evitar uma possível alergia vinda daquela nuvem flutuante da memória varrida.

Ria, sozinha, de como as coisas tinham sido. Ria porque envergonhava-se de chorar no ambiente público em que se encontrava. Todos aqueles renascimentos, que na verdade nem mortos estavam, porém ela imaginava que sim, a emocionavam profundamente. Era como se uma faca muito aquecida, vagarosamente, fosse rodada em seu peito. E sua boca estivesse tapada, amordaçada, impedindo-a de liberar aquele heróico grito de expurgação.

Não seria falso dizer que uma súbita vontade de rir também apoderava-se dela. Era como se risse da e na cara de todas as sinceras bobagens de antes. E como se ria dela mesma. Na verdade era isso. Um riso de escárnio, antecedido pelo sorriso de desterrar aquilo que estava enterrado [?].

Lembrou-se de alguém em especial. Daquele que tivera a proeza de unir num só relacionamento todos os adjetivos citados anteriormente: um amor passado, pastado, malfalado, abafado, abandonado, mal-acabado e inacabado. Certamente deveria haver muito mais entre essas vírgulas. Apesar de toda beleza que fora aquele amor – que sim, tinha sido amor, de ambas as partes-, e do bem em que se encontrava no presente, sem aquela infortuna preocupação de saber até quando, pensar nele gelava-lhe a boca do estômago, e a sensação de outro grito calado vinha.

Finalmente, vencera os 15 minutos que levava de sua casa à da felicidade. Por bem pouco aqueles devaneios não a fazem ir em frente. Mas seguiria para onde nesse caso batido? Infelizmente, não poderei responder a vocês, meus queridos, posto que nem mesmo ela sabia. Eu tentei, e tento, mas vocês sabem que quando  a turvação da vista é transitória ou definitivaa nuvem causa isso -, fica difícil até mesmo para mim descobrir o que há nos cantos mais acantoados e encantados.

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

– Oi, amor.

 

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Sonolência

Num súbito movimento esfregou os olhos de cristal, que repletos de sal, ardiam feito brasa acesa no quintal. O dedo já tremia daqueles tantos movimentos. A perna esquerda comprimia todos aqueles compartimentos. Há tempos que não era daquele jeito. E lembrou-se de quando debruçada no parapeito da janela, imaginava feliz, com as grades no nariz, um sonho perfeito. Eram tantas sentimentalidades; tanta inocência. A naturalidade da inconsciência na puberdade.

Embalada em leves melodias, contava, enquanto cantava, as estrelas, com alegria. Escrevia poemas a revelia. Sem pluma nem papel. Era sempre ao léu. Na cantoneira, havia sempre uma luneta, e por fim, brincava, no céu, de jardim. A Lua, dessa vez, era jasmim. E sentia o frescor da brisa invadir seu quarto sem pedir licença. E adorava aquela intrometida presença.

Aproveitava o momento com ela, e tirava, antes da soneca, a sonata pra dançar. E abraçadas, davam imensas braçadas, e sentiam a vento escorrer por entre os dedos das mãos. Era um louco deslizar. Um delicioso bailar. E suada, secava-se no chão. Deitava, se esticava, e brincava mais um pouco, sem direção.

[Toc, toc, toc -abriram a porta-
_Oi?
_Ainda acordada?
_Sim.
_Vá dormir! Já passa das 2h. Amanhã é dia de branco.]

Confirmou o horário. A mãe estava certa. Desligara-se do mundo virtual e real por loooooongos minutos. Havia tempo, também, que não se permitia tal companhia. E teimosa, sua consciência lhe perguntava se aquilo que vivera na adolescência era mesmo inconsciência. Não soube responder. Talvez fingisse não saber. Era menos doloroso. E muito mais fácil, afinal, tudo a sua volta era irreal, e insistiam, desde pequena, em fazerem-na acreditar na existência de uma verdadeira [i]moral.

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