Sentada na cama sobre as pernas cruzadas que já apresentavam indícios de dormência pelo excessivo tempo naquela mesma posição, lia pela sengunda, talvez terceira, aquele mesmo livro. E a cada leitura, a impressão que a dominava, era de que um penhasco abria-se diante de seus pés, e então contemplava a descoberta daquele novo mundo.
‘A sensação das mãos molhadas, incapazes de reter a água. Era a mesma que sentia quando as palavras iam surgindo de dentro, formando as frases que tinham cadência e refletiam apenas o balanço do pensamento que divagava, como se andasse pelo corpo todo e apanhasse, em cada ponto, o ritmo próprio que a animava.’
Era isso.
Sorvera outra taça de vinho. Daquele modo. Naquela sucessividade, acabaria por embriagar-se, mas o sabor amargo daquele sumo de uvas, agradava-lhe tanto. Gostava de empoça-lo na boca, a fim de saborear ao máximo aquela colheita. Imaginava que mergulhar nas profundezas daquele abismo poderia ser intenso como era o torpe que aquele lento virar proporcionava-lhe. E fitava ora o nada ora o teto enquanto deliciava-se com aquele efervecer de sensações causados também pelo tinto. No momento daquele segregar, apetecia-lhe laçar todas as miragens que insistiam em seduzi-la para o mergulho naquele precipício. Não devia ser de todo ruim, porém sabia que poderia não mais retornar das cinzas da delícia e do prazer que é o lar do ‘faz-de-conta’. Perguntava-se, com rugas na testa, por que não cumprir as ordens do desejo, e assim trouxe o passado a eternizá-lo. E num ímpeto deslizar, imergia tão além, que nem pôde regressar. E sorriu.

