E sua vida voltava ao normal. Aquela sensação que tanto a atordoava, somente ao imaginar a futura despedida, concretizava-se. Cada incompreensível angústia que sentia, agora clareava-se, enfim. Sim, aquele sentimento era uma espécie de presságio. Uma antecipação de seu inconsciente, que a presenteava com o que estaria por vir.
Embora quisesse parecer indiferente a tudo que, loucamente, alvoroçava suas sensações, sabia do ocorrido no seu lado avesso. Tentava desmentir, para si mesma, a impressão de que ele também adivinhara. E assim, permaneceu todos e cada minutos. É bom ressaltar que a intenção de indiferença era simplesmente para demonstrar que o bom senso ensinara-lhe a ser racional quando deveria ser. Não gostaria de demonstrar a menina romântica que, provavelmente, era.
Por isso tentou, até o último instante, aparentar alegria e satisfação – o que não era mentira -, porém sabia que não era apenas isso. Esses sentimentos vinham acompanhados de mais; de um intenso e até ridículo desejo de agarrar as horas e prendê-las, bem forte, na palma das mãos e, com este gesto, possibilitar que o momento permanecesse retido. Imóvel. Eterno. E então eles poderiam bailar, despreocupados, ao som daquela deliciosa canção que soava de ambos os peitos.
Sonata que a deixava parada. Em perplexa contemplação diante daquela face que o tempo fizera o favor de apurar tanto, e tão bem. E perdia-se no desejo de seu importuno desejo. E dizia-se não. Mas era sim.
E a cada ‘enjanbement’ daquelas notas musicais, que aquele moderno aparelho trazia em si; a cada respiração impausável; a cada deslizar de peles; a cada silencioso olhar que continham todas as palavras do universo. Tudo. Tudo era um tormento naquela manhã seguinte, que insistia fazer daquele passado o presente.
Andava sonâmbula pelas ruas movimentadas. Nada via nem ouvia. Encontrava-se embevecida pelas miragens alucinógenas daquele dia que, mesmo sem querer, sua lembrança, como já foi dito, insistia em trazê-las. E aquele presente fazia-se daquele passado, que mal acabara.
E aquela fala. Aquela moto. Aquele vento cortante. Aquela rua. Aquele primeiro beijo. Aquele jantar. Aquele vinho. Aqueles olhos. Aquelas mãos. Aquela pele. Aquele cheiro. Aquele cair de águas. Aquele recitar de versos lusitanos. Aquele espriguiçar. Aquele porte sério que escondia um humor ora ácido ora ingênuo; ambos frescos e genuínos. Aquela companhia. Aquela noite que estendera-se até a próxima. E que algum dia voltará.

